Dias antes de morrer, técnica de enfermagem clamou pelo isolamento social: 'cuidem dos seus amigos e família' - MACAUBENSE LIFE

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quarta-feira, 29 de abril de 2020

Dias antes de morrer, técnica de enfermagem clamou pelo isolamento social: 'cuidem dos seus amigos e família'

RIO — Há uma semana a técnica de enfermagem Daniele Costa fez uma transmissão ao vivo em uma rede social contando para seus amigos como era estar com a Covid-19 e clamou para que as pessoas permaneçam em isolamento social. Para alguns amigos e entes queridos, este foi o último contato com Daniele, que quatro dias depois foi internada no CTI do hospital Zilda Arns e morreu nesta segunda-feira.



Muito emocionada, ela narra como seu atendimento no Hospital Geral de Nova Iguaçu a deixou incomodada. Daniele trabalhava na UPA de Austin, em Nova Iguaçu, e começou a sentir os sintomas no dia 14 de abril e procurou a unidade dois dias depois. O primeiro médico que a recebeu estava há pelo menos 12 horas sozinho no plantão e sem se alimentar. Após realizar a tomografia computadorizada ela foi atendida por outro médico, que segundo Daniele, nem a olhou nos olhos, a liberou logo em seguida e ainda afirmou que achava estar contaminado.

— Eu fui tão maltratada no hospital aquele dia. Sou profissional de saúde, me identifiquei que trabalhava na UPA, mas fui tratada muito mal. O segundo médico nem olho na minha cara. O primeiro, infelizmente não estava lá. Ele me mandou embora sem prescrever a medicação e dizendo que todos iriam pegar — desabafou.

Ao fundo da transmissão feita pela técnica de enfermagem é possível ouvir músicas muito altas. Ela conta que o som vem de uma barraca em sua rua que frequentemente realiza pequenas festas e aglomerações.

— Aqui do lado tem uma barraca e eu vejo reuniões todos os dias. Isso me entristece, dói meu coração. São todos meus vizinhos e pessoas que eu gosto. Fico com medo deles ficarem doentes igual a mim. Não quero que nenhum dos meus amigos e familiares passem pelo que eu passei. Cada dia é uma surpresa e um sintoma diferente. Tenham cuidado, cuidem dos seus amigos e família. Deixe para comemorar depois, fazer churrasco depois. Não é o momento, estão botando suas vidas e de outros em risco. É muito ruim e não é brincadeira — narrou Daniele.

Em seu depoimento a técnica ainda comenta que outros colegas que trabalham na frente do combate ao coronavírus foram infectados. Um deles, inclusive teve duas mortes em sua família.

— Meus amigos da área de saúde, diminuam a carga de trabalho. Eu sei que precisamos, mas estou pagando por trabalhar muito e hoje estou vendo que não é legal. Lutem pelos EPIs de verdade, os EPIS corretos.

Daniele será sepultada nesta quarta-feira às 10 horas no Jardim da Saudade, em Mesquita. O Sindicato de Enfermagem do Rio estima que ao menos 20 profisisonais no estado já morreram por Covid ou tem as mortes investigadas pelo novo coronavírus.

— O péssimo atendimento que recebeu a entristeceu muito. Eu falei com ela durante todo tempo que aguardou atendimento no hospital Ela estava muito indignada com a falta de respeito, e indiferença dos profissionais que lhe atenderam. Isso é triste, alguém que sempre fez seu melho. Lembro de chegar na sala amarela em seus plantões. Ela cuidava com amor, com preocupacao e com respeito — lembra a auxiliar admistrativa Vanessa Cunha, que trabalhou coma Daniele na UPA de Austin.

Outros colegas de Daniele também lembraram a defesa da profissional pelo sistema de saúde:

— Era a felicidade em pessoa. Dani chegava brigava pela enfermagem, ela brigava pelos pacientes, defendia o SUS. como ninguém. Muito me entristece ver um depoimento que Dani quando mais precisou foi mal atendida, logo ela que salvou tantas vidas — desabafou Líbia Bellusci, vice-presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Rio.

Procurada, a prefeitura de Nova Iguaçu lamentou a morte de Daniele e afirmou que Hospital Geral de Nova Iguaçu vive um cenário atípico devido à pandemia do novo coronavírus, uma vez que os atendimentos usuais de urgência e emergência (baleados, esfaqueados, acidentados e etc) continuam chegando de toda à Baixada Fluminense. O município ainda disse que não havia necessidade de internação naquele momento. E que na última quarta-feira (22), Daniela retornou à Upa de Austin,e foi internada com falta de ar, inserida na regulação estadual e transferida na última sexta-feira (24), para o Hospital Zilda Arns, em Volta Redonda.


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